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Ciência cidadã e divulgação científica como estratégias de conservação da biodiversidade.

Projeto universitário monitora atropelamento de animais e aponta impacto da urbanização sobre a fauna

Iniciativa de extensão desenvolvida em área urbana de Curitiba une monitoramento científico, participação popular e divulgação para mapear atropelamentos de animais silvestres e ampliar o debate sobre conservação da biodiversidade nas cidades.

O avanço das áreas urbanas e o aumento do fluxo de veículos têm intensificado um problema pouco visível, mas de grandes proporções ambientais: o atropelamento de animais silvestres. Essa realidade é o foco do projeto de extensão universitária OLHA O BICHO!, apresentado em artigo da Revista Ciência & Cultura, que detalha como a universidade pode atuar diretamente no monitoramento desse impacto e na aproximação entre ciência e sociedade.

Desenvolvido por meio de ações de extensão, o projeto tem como objetivo principal registrar sistematicamente ocorrências de fauna atropelada em áreas urbanas, ao mesmo tempo em que estimula a ciência cidadã e a divulgação científica. A proposta parte do entendimento de que os atropelamentos representam uma das principais causas de mortalidade de animais silvestres, inclusive em ambientes urbanos, onde muitas espécies ainda circulam em busca de alimento, abrigo ou áreas de reprodução.

O monitoramento é realizado por meio de caminhadas periódicas em trechos específicos de vias urbanas, geralmente próximos a áreas verdes. Durante as expedições, os pesquisadores observam a presença de carcaças de animais e registram informações como local exato, data, horário, fotografias, identificação taxonômica e características do entorno. Para garantir precisão, são utilizados formulários padronizados e aplicativos que registram data e localização das imagens. Quando a identificação não é possível em campo, especialistas auxiliam na análise das fotografias.

Além do trabalho técnico, o projeto aposta na participação da comunidade como parte fundamental da coleta de dados. Por meio de materiais orientadores, professores, estudantes e moradores são incentivados a registrar atropelamentos e enviar informações ao projeto, inclusive por canais digitais como o WhatsApp. Essa estratégia amplia o alcance do monitoramento e fortalece o conceito de ciência cidadã, no qual a população contribui diretamente para a produção de dados científicos.

Os resultados obtidos ao longo de dois anos de monitoramento em uma área piloto no bairro Tingui, em Curitiba, revelam a dimensão do problema. Foram realizadas 44 expedições de campo, com o registro de 235 animais atropelados. Os anfíbios apareceram como o grupo mais afetado, representando 38% dos registros, seguidos por mamíferos, com 29%, aves, com 22%, e répteis, com 11%. Os dados reforçam a vulnerabilidade desses grupos, especialmente em regiões próximas a áreas úmidas e corredores ecológicos inseridos no espaço urbano.

Em 2025, o projeto ampliou sua atuação para um segundo trecho, localizado nas proximidades do Zoológico Municipal de Curitiba. Nesse novo ponto, foram registradas 37 ocorrências de atropelamento em apenas sete expedições, novamente com predominância de anfíbios. A expansão contou com a participação ativa de um cientista cidadão, que realizou parte do monitoramento utilizando bicicleta, demonstrando a viabilidade de diferentes formas de engajamento da população.

A divulgação científica é outro eixo central do projeto. As informações coletadas são compartilhadas principalmente por meio das redes sociais, com destaque para o perfil do projeto no Instagram. As publicações abordam temas como ecologia de estradas, impactos da urbanização sobre a fauna e estratégias de conservação, utilizando linguagem acessível. Segundo o artigo, o perfil alcança milhares de pessoas mensalmente e já produziu mais de uma centena de conteúdos educativos.

Além das redes sociais, o projeto participa de eventos acadêmicos, oficinas comunitárias e atividades pedagógicas, reforçando o papel da extensão universitária como ponte entre o conhecimento científico e a sociedade. Um guia de campo voltado à ciência cidadã está em fase final de elaboração, com o objetivo de facilitar ainda mais a participação de não especialistas e de escolas da educação básica.

A experiência relatada demonstra que a integração entre monitoramento científico, envolvimento da comunidade e divulgação científica contribui não apenas para a geração de dados relevantes sobre atropelamentos de fauna, mas também para a conscientização ambiental e o fortalecimento de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade urbana. O projeto se consolida, assim, como um modelo que pode ser replicado em outras cidades brasileiras, inclusive em municípios de médio porte que enfrentam desafios semelhantes entre crescimento urbano e preservação ambiental.

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