No momento, você está visualizando Taxação de ultraprocessados pode evitar milhões de casos de doenças e centenas de milhares de mortes no Brasil
Tributos podem evitar quase 1,8 milhão de adoecimentos e 237 mil óbitos até 2044

Taxação de ultraprocessados pode evitar milhões de casos de doenças e centenas de milhares de mortes no Brasil

Estudo aponta que aumento de impostos sobre alimentos ultraprocessados pode reduzir significativamente o sobrepeso e a incidência de enfermidades crônicas nas próximas décadas

O avanço do sobrepeso e da obesidade no Brasil tem preocupado especialistas em saúde pública. Mantida a tendência atual, o país poderá registrar cerca de 10 milhões de novos casos de doenças crônicas evitáveis entre 2024 e 2044, além de mais de 1 milhão de mortes associadas a essas enfermidades. Diante desse cenário, pesquisadores apontam a taxação de alimentos ultraprocessados como uma das estratégias capazes de reduzir os impactos desse problema.

Um estudo conduzido pelo epidemiologista Leandro Rezende, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avaliou os possíveis efeitos da cobrança de impostos sobre alimentos ultraprocessados, categoria que inclui produtos industrializados com elevados teores de açúcar, gordura, sal e aditivos químicos destinados a aumentar a durabilidade e a atratividade dos alimentos.

Os resultados, publicados em abril no periódico American Journal of Preventive Medicine, indicam que a medida poderia contribuir para reduzir significativamente os índices de sobrepeso, além de evitar centenas de milhares de casos de doenças crônicas e mortes associadas.

Atualmente, cerca de 57% dos adultos brasileiros apresentam sobrepeso, condição caracterizada por Índice de Massa Corporal (IMC) entre 25 e 29. Segundo as projeções do estudo, sem intervenções mais efetivas, esse percentual poderá atingir 75% da população adulta até 2044.

De acordo com as simulações realizadas pela equipe da Unifesp, uma taxação de 10% sobre os ultraprocessados reduziria a proporção de adultos com sobrepeso para 67% em 2044. Com isso, aproximadamente 526 mil novos casos de doenças relacionadas ao excesso de peso seriam evitados, além de cerca de 71 mil mortes.

Quando a taxação sobe para 20%, os benefícios aumentam. Nesse cenário, o percentual de adultos com sobrepeso cairia para 63%, evitando 861 mil casos de doenças crônicas e 115 mil óbitos.

Já uma taxação de 50% poderia gerar impactos ainda mais expressivos. A frequência de sobrepeso na população seria reduzida para 50%, prevenindo aproximadamente 1,8 milhão de casos de doenças e 237 mil mortes ao longo das duas décadas analisadas.

Segundo Leandro Rezende, o diferencial do estudo está na avaliação do impacto da tributação sobre o conjunto dos alimentos ultraprocessados, e não apenas sobre produtos específicos.

“A maior parte das políticas e dos estudos se concentra em itens isolados, como bebidas açucaradas. Mas o efeito da alimentação sobre a saúde depende do padrão alimentar como um todo. Por isso, ações voltadas ao conjunto dos ultraprocessados tendem a ter maior potencial de impacto”, explica o pesquisador.

O consumo desses alimentos tem crescido no Brasil. A participação dos ultraprocessados na dieta dos brasileiros passou de 16% das calorias consumidas em 2003 para 20% em 2018. Apesar do aumento, o índice ainda é inferior ao observado em países como os Estados Unidos, onde esses produtos representam mais da metade das calorias ingeridas diariamente.

Especialistas, porém, alertam que a taxação, isoladamente, pode não ser suficiente para enfrentar o problema.

Um estudo divulgado em março pelo economista Valter Palmieri Júnior, da organização ACT Promoção da Saúde, aponta que a inflação dos alimentos no Brasil afeta de forma desigual os diferentes grupos de produtos. Segundo a pesquisa, alimentos in natura e minimamente processados têm registrado aumentos de preço mais intensos do que os ultraprocessados.

Entre 2006 e 2026, por exemplo, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%. Para Palmieri, essa situação acaba incentivando escolhas alimentares menos saudáveis, já que produtos ultraprocessados se tornam relativamente mais acessíveis para parte da população.

A epidemiologista Eurídice Martínez Steele, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens-USP), destaca que os resultados estimados pela pesquisa são plausíveis, mas dependem da adoção de outras políticas complementares.

Entre as medidas apontadas pela pesquisadora estão a regulação da publicidade de alimentos, ações de educação alimentar e a criação de ambientes que favoreçam o acesso a opções mais saudáveis. Ela também defende subsídios para alimentos in natura, de forma a evitar que o aumento dos preços dos ultraprocessados tenha impacto excessivo sobre as famílias de menor renda.

A mesma avaliação é compartilhada pela nutricionista Helen Hermana Hermsdorff, professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Para ela, o combate ao sobrepeso e à obesidade exige uma abordagem ampla, capaz de considerar fatores biológicos, sociais e econômicos.

“É importante retirar do indivíduo a responsabilidade exclusiva pelo enfrentamento da obesidade e reconhecer que as escolhas alimentares dependem das condições oferecidas pelas políticas públicas”, afirma.

No Brasil, a reforma tributária aprovada em 2023 criou o chamado imposto seletivo, que começará a ser aplicado a partir de janeiro de 2027. Inicialmente, a medida deverá atingir apenas bebidas açucaradas, como refrigerantes, chás prontos e sucos industrializados, considerados uma parcela dos alimentos ultraprocessados.

Enquanto o debate avança, especialistas reforçam que a combinação entre tributação, incentivo ao consumo de alimentos naturais e educação alimentar pode desempenhar papel importante na redução das doenças crônicas que hoje representam um dos principais desafios para a saúde pública brasileira.

Deixe um comentário